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O Auto da Barca do Inferno (Gil Vicente): Análise e Resumo



O Auto da Barca do Inferno foi escrito por Gil Vicente, um dos protagonistas do Humanismo (período literário compreendido entre o final da Idade Média e o Renascimento). Os autos são textos que exploram assuntos religiosos. A peça retrata uma espécie de Juízo Final, onde os mortos são levados para duas barcas (barcos, navios): um para o Inferno e outro para o Paraíso. Veja, agora, as características de cada um dos personagens. 


Características Gerais da Peça:

Versos heptassílabos, em tom coloquial. Cada personagem apresenta, através da fala, traços que denunciam sua condição social. Peça teatral em um único ato, subdividido em cenas marcadas pelos diálogos que o Anjo ou o Diabo travam com os personagem. Se passa num ancoradouro, no qual estão atracadas duas barcas. Todos os mortos passam pelas barcas, sendo julgados e condenados ou à barca da Glória ou à barca do Inferno.

Diabo: conhece muito bem cada um dos personagens que lhe cai às mãos; é zombeteiro, irônico e bom argumentador. Gil Vicente não descreve o Diabo como responsável pelos fracassos e males humanos; o Diabo é um juiz, que exibe o lado mais recôndito dos personagens, revelando o que cada um deles procura esconder.

Fidalgo: nobreza. Chega com um pajem, vestido com roupas solenes e uma cadeira. É condenado por sua vida pecaminosa, em que a luxúria, a tirania e a falta de modéstia pesam como graves defeitos. A figura do Fidalgo, orgulhoso e arrogante, permite a crítica vicentina à nobreza. 

Onzeneiro (agiota): usuário que alega ter deixado suas posses em terra; querendo buscá-las, revela seu apego às coisas mundanas. O Diabo não quer que ele volte à terra para reaver suas riquezas, condenando-o ao fogo do Inferno. 

Parvo (ingênuo, tolo): ele escapa do Inferno. É uma alma pura, cujos valores são legítimos e sinceros, o que o conduz ao Paraíso. Em várias passagens da peça, o Parvo ironiza a pretensão de outros personagens, que se querem passar por "inocentes" diante do Diabo.

Sapateiro: representante dos mestres de ofício, é um desonesto explorador do povo. Chega com todos os aparatos de sua profissão e, habituado a ludibriar os homens, tenta enganar o Diabo, que o condena ao fogo eterno.

Frade: é acompanhado de uma amante. Ele é alegre, risonho, cantante, mas mau-caráter. Ele se acha inocente por ser membro da Igreja, por ter rezado e estar a serviço da fé. Ele dá uma lição de esgrima ao Diabo (que finge não saber manejar uma arma), o que prova a culpa do espadachim, já que frades não lidam com armas. A crítica vicentina ao clero é incisiva: os homens da fé não sabem ser pacíficos, verdadeiros nem bons.

Brísida Vaz: agenciadora de meretrizes e feiticeira. Ela é conhecida de outros personagens, que utilizaram em vida seus serviços. Inescrupulosa, traiçoeira, cheia de ardis, não consegue fugir à condenação.

Judeu: traz um bode. Não obedece à doutrina cristã e é detestado por todos, inclusive pelo próprio Diabo, que num primeiro momento nem o aceita em sua barca. Depois de ser recusado também pelo anjo da barca da Glória, o judeu finalmente é aceito pelo Diabo, entretanto ele não entra na barca: ele é rebocado junto com o seu bode. 

Corregedor e Procurador: juiz e advogado, personagens condenados pela imoralidade. Eles faziam da lei uma fonte de ganhos ilícitos e de manipulação de sentenças, dadas conforme as propinas recebidas.

Enforcado: acredita que a morte na forca o redime de seus pecados, mas ele é condenado ao inferno.


Cavaleiros cruzados: como lutaram contra os mouros em prol do triunfo da fé, são conduzidos à barca da Glória.
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